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Segundo Semestre de 2006

Segundo Semestre de 2006
por Lilith Marangon

Os fatos se sucederam da forma mais normal possível. Gaúcho, alto, simpático, casado, 27 anos. Um moicano firme pelo gel no lugar do que, talvez, já tenha sido uma vasta cabeleira. Naquele primeiro contato até me surpreendi com a volta de minhas atitudes intimidativas da época de solteira.

- Ah, *Nome aqui*, volta aqui pra me fazer companhia!

Ele encarou como se fosse qualquer outra frase; a resposta foi um simples "beleza".

As emoções de todo início de trabalho ainda se afloravam em mim naquele 1º domingo do mês de setembro em frente à sala pela qual fiquei responsável. "Sant'Ana - Coleção Angela Gutierres" era - e talvez ainda seja - a minha preferida para dar monitoria e, por coincidência, teria que permanecer lá uma tarde inteirinha. Aquele rapaz era apenas mais um colega de trabalho em contraturno ao meu. Nos encontramos por acaso nesse dia em frente à Sant'Ana - a responsabilidade matutina cabia a ele - e, sabe Deus porque, lhe pedi que voltasse para me fazer companhia após o curto intervalo de almoço que era disponibilizado a nós, monitores do Museu Oscar Niemeyer.

Meia hora atrazado ele retorna. Droga, sem perceber eu havia contado os minutos!

O tão esperado momento da conversa a sós não durou muito:

- Olá Andréia!

Não fiquei chateada. Não sentia a necessidade extrema de que estivéssemos a sós, apenas queria mostrar - mesmo sem entender o porquê - minhas qualidades e meus pensamentos. Enquanto nós três conversávamos fiquei chutando os pés do *Nome Aqui* gingando, de loeve, o corpo de um lado para o outro - necessidade de ações e reações que só envolvessem eu e ele? O rapaz não gostou, falou de uma forma educada. Tudo bem, a essas horas eu estava mais afim do ato que da pessoa. Iniciei o mesmo ritual nos pés da Andréia.

Atingindo o horário de meus dois colegas da manhã seguirem suas vidas à parte do museu, fiquei sozinha, cercada por várias faces distintas da avó de Cristo.

Ele continuava sendo apenas mais um homem comum - casado, 27 anos - mas, de alguma forma, conseguira fazer minha vontade de nos conhecermos melhor aumentar.

Com o passar dos dias conversamos sobre várias coisas; consegui, finalmente, me expressar como queria. Éramos, enfim, verdadeiros companheiros de trabalho, idéias e ideais. Rapaz sério que me inspirava curiosidade agora mostrava-se - sem limites - terno, gentil e muito agradável.

Lembro-me bem do dia em que foi trabalhar de All Star vermelho. Sim. Confesso. Aquilo sensibilizou meu, então redescoberto, sucetível coraçãozinho.

Como era de se esperar, acabamos nos aproximando muito. A única coisa imediatamente seguinte da qual me recordo é o dia em que ele tentou me beijar.

Íamos almoçar. A consequencia do enorme afeto que havia surgido foram vários abraços, beijos no rosto e carinhos sutís que, de certa forma, prolongaram o curto caminho que cortava o Bosque do Papa. Por sinal, local nostálgico.

Chegando à rua do singelo restaurante ao qual nos dirigíamos, as atitudes carinhosas alcançaram o limite. *Nome Aqui* colocou as mãos em meu rosto e, rapidamente, tentou encostar seus lábios nos meus. Evitei-o.

Nos instantes imediatamente seguintes, só conseguia pensar em ter alguma atitude que não frustrasse a ambos para que a situação fosse normalizada.

Rir, fazer piadas sobre qualquer outra coisa... Quanto custaria o buffet?

- Mais ou menos R$5,00.

- Que caro...

O almoço iniciou e finalizou-se da mesma forma, nenhum comentário a respeito do ocorrido. No fundo me sentia constrangida por saber que eu mesma, inconscientemente, o induzi àquela atitude. O que seria possível fazer para que essa atração mútua diminuísse?

Alguns dias depois conversamos. O decidido foi que um afastamento poderia acalmar-nos os instintos.

Continuamos conversando, entretanto, agora sem o excesso de carinhos. Descobrimos mais um sobre o outro e pudemos crescer como amigos.

Durante certas semanas de outubro até se tornou frequente nossa presença, em horários de intervalo, nas salas vazias do museu com o propósito de longas conversas. Esse tour fez-se-me hábito mesmo quando sozinha.

A distância

tornou-se agradável aos

poucos.

Amigos, enfim.
Minha alma tranquilizou-se.


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Velhos tempos... Disso acho que só me resta o gosto por caras altos e de All Star e a apreciação incondicional pelo povo gaúcho (amados conterrâneos! Liberdade, Igualdade, Humanidade!). Esse texto escrevi para um trabalho da faculdade, sobre o qual nem me recordo o tema.

Mexendo no "quartinho da bagunça" aqui de casa achei uma pasta A3 e, dentre vários papéis, estava esse. Nostalgia total. Sempre gostei de escrever sobre mim.

Sobre o tal *Nome Aqui*, talvez ele me odeie hoje em dia, talvez não. O fato é que a história não acabou aonde acabou aquele texto, muitas coisas aconteceram depois. Sim, sim, confesso, cedi às investidas (investidas? Hoje em dia vejo que era algo mútuo mesmo... Bem, acho que já falei dessa forma no texto também). Não sei o que comentar, muitas lembranças me vêm à mente. Foi uma época um tanto obscura da minha vida... Nada MUITO grave... Enfim...

Sinto saudades de algumas pessoas com as quais já convivi. Ele é uma. Sempre foi educado e gentil (gaúcho xD beeest!). A Lilith antigamente, pobrezinha, andava meio perdida procurando seu caminho. Hoje em dia, ela já achou, já está formada, já sabe o que quer consigo mesma e com os outros. Sinto vontade de reparar algumas coisas.

Reflexões me fazem bem.

Lilith Marangon

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